Quando o Verão se Despede: O Que a Luz Te Deixou

Há um dia, no fim de cada verão, em que se percebe que alguma coisa mudou.

Não vem anunciado no calendário. É uma luz que entra mais inclinada pela janela ao fim da tarde. É o primeiro casaco esquecido no banco de trás do carro. É a praia de repente vazia numa terça-feira, com o mar ainda quente e ninguém para o ver.

E há quem sinta um aperto no peito, uma certa nostalgia sem saber bem porquê.

Esse aperto tem nome. É despedida…

Como canta o Jorge Palma, "No bairro do amor há quem pergunte a sorrir: Será que ainda cá estamos no fim do Verão..."

Esta madrugada, com o equinócio, o sol entrou em Balança e o verão despediu-se oficialmente. Durante umas horas, o dia e a noite tiveram exatamente o mesmo tamanho. Um ponto de equilíbrio perfeito, antes de a balança começar a pender para a escuridão.

Talvez seja por isso que estes dias pedem tanto de nós. Estamos numa soleira. Com um pé no que foi e outro no que vem.

Antes de entrar, é preciso despedir…

Falamos muito do outono. Do soltar, do recolher, das folhas que caem. Mas raramente paramos no momento anterior, aquele em que o verão ainda está aqui, a fechar a porta devagar.

E é um momento que merece ser vivido.

Porque se passas diretamente do verão para o outono sem te despedires, alguma coisa fica por fechar. Ficam os dias bons que não agradeceste. Ficam as promessas que fizeste em julho e que agora te pesam por não as teres cumprido. Fica aquela sensação estranha de que o verão “passou a correr” e não o viveste.

A despedida é o que transforma o tempo que passou em tempo vivido.

O que o verão te deu (mesmo que não tenha sido o que esperavas)

Nem todos os verões são de postal. Há verões de trabalho sem pausa. Verões de cuidar de alguém. Verões em que o corpo pediu descanso e a vida não deixou. Verões em que as férias existiram só nas fotografias dos outros.

Mas até esses verões te deram alguma coisa.

Talvez tenha sido uma conversa à noite, na rua, quando o calor não deixava dormir. Um figo apanhado da árvore. Um mergulho que te lavou mais do que o corpo. Uma tarde em que, sem razão nenhuma, te sentiste inteira.

O verão é a estação da luz no máximo. E a luz tem esta particularidade: mostra tudo. O que é bonito e o que precisa de atenção. O que cresceu e o que ficou por resolver.

Aquilo que o verão te mostrou é informação preciosa para o recolhimento que aí vem.

A melancolia não é tristeza. É memória a acontecer

Há quem tente fugir da melancolia de setembro. Enchem-se as agendas, compram-se cadernos novos, fazem-se planos para não sentir o vazio do que acabou.

Mas a melancolia do fim do verão não é um problema a resolver. É o coração a guardar.

É a alma a fazer o que faz a formiga: a recolher para dentro o calor que vai precisar nos meses frios. Aquela saudade antecipada do sol é a prova de que houve algo bom. E de que tu estiveste lá para o sentir.

Não precisas de despachar esse sentimento. Podes deixá-lo sentar-se contigo um bocadinho.

O equilíbrio da Balança

O equinócio é o único momento do ano (juntamente com o da primavera) em que a luz e a sombra estão em igual medida. E o signo que se abre agora, Balança, fala exatamente disso: de equilíbrio, de justiça, de relação.

É por isso que o fim do verão é um tempo tão bom para fazer as contas com gentileza.

Não as contas do que falhaste. As contas honestas. O que deste e o que recebeste. O que te encheu e o que te esvaziou. Com quem estiveste e com quem já não fazia sentido estar.

Em 2026, esta despedida tem um peso diferente. Estamos num Ano Universal 1, o ano das sementes. E setembro, Mês Universal 1, trouxe esse número em dobro. O verão que agora termina foi o primeiro verão de um ciclo de nove anos. O que ele te ensinou vai acompanhar-te durante muito tempo.

Um pequeno ritual de despedida

Não precisa de ser elaborado. Precisa de intenção.

Escolhe um fim de tarde destes, quando a luz estiver dourada. Senta-te num sítio onde a vejas: uma janela, uma varanda, um banco de jardim, a areia.

Leva papel e caneta, e escreve uma carta ao verão. Pode começar simplesmente assim: “Querido verão, obrigada por…”

Deixa vir o que vier. Os momentos bons, as lágrimas, as surpresas. Aquilo que querias ter vivido e não viveste também pode entrar, sem culpa. Escreve também o que queres levar contigo para os meses escuros: uma sensação, uma lição, uma leveza.

No fim, guarda a carta junto de alguma coisa que o verão te tenha dado. Uma concha, uma pedra da praia, uma flor seca, um bilhete de um concerto. Pode ficar no teu altar, numa gaveta, entre as páginas de um livro.

Quando chegar fevereiro e o frio parecer infinito, vais saber onde está a tua luz guardada.

Nada do que foi luz se perde

As árvores não esquecem o verão quando as folhas caem. Guardam-no nas raízes, em forma de energia, e é com ele que vão florescer outra vez.

Contigo acontece o mesmo.

O sol que apanhaste, os risos, os mergulhos, até o cansaço. Tudo isso fica em ti. Não como uma coisa que perdeste, mas como uma reserva que te vai sustentar enquanto o mundo lá fora abranda.

Por isso, antes de fechares a porta, olha para trás uma última vez. Agradece. E entra no outono com as mãos cheias.

Com a pele ainda a saber a sal,
Bé ♡

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Shopping Cart
Scroll to Top